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FICHA DE INVENTÁRIO
Museu:
Museu Nacional de Etnologia
N.º de Inventário:
AV.550
Supercategoria:
Etnologia
Categoria:
Actividades lúdicas
Denominação:
Marioneta
Título:
Surya Siu (?)
Local de Execução:
Indonésia, Bali
Datação:
XX d.C.
Matéria:
Pele de animal; madeira; policromia
Dimensões (cm):
altura: 40; largura: 13;
Descrição:
Figura humana masculina em silhueta, feita de pele de animal, suportada ao centro por haste de chifre bovino. Uma das mãos segura um arco e a outra mão está situada na zona da cintura. Apresenta corpo na cor castanho. Face com olhos dedelingan (olhos circulares) e boca untu asat (dentes lisos), ligeiramente aberta. Possui toucado ou chapéu que representa o cabelo preto, contido na parte da nuca e coberto por uma camada vermelha, talvez representado turbante ou lenço. Apresenta traje de casta satryia (nobreza) semelhante a bulat gantut que representa camisa justa, calças e veste de cor base verde com margens vermelhas e decoração de linhas geométricas pretas. O traje possui três pontas onduladas vermelhas, duas laterais e uma entre as pernas.
Incorporação:
Compra - Anterior proprietário: desconhecido
Proveniência:
Indonésia, ilha de Bali, Munggu
Origem / Historial:
O nome Surya Siu não é comum e suscita algumas dúvidas. Em sânscrito e no hinduísmo indiano Surya é o deus sol; no repertório do Mahabharata, Surya é a personagem do deus sol, que dá um filho ilegítimo a Kunti, Karna. Este é abandonado e criado por um cocheiro e torna-se leal a Duryodana, filho mais velho dos irmãos Korawa. Só mais tarde descobre que é meio-irmão dos Pandawa. É morto em batalha pelo meio-irmão Arjuna. No repertório Ramayana, Surya é pai de Sugriwa, o rei macaco que ajuda Rama e Lakshmana a derrotarem Rawana. Anoman, o macaco, personagem fiel a Rama, é treinado por Surya na sua juventude. A posição da figura indica que é utilizada em cenas de combate (provavelmente da grande batalha Bharatayuddha). A posição e a arma (arco) da figura indicam que é uma figura "Bala" utilizada para representar o exército de soldados aliados dos Pandawa. Objecto pertencente à colecção de 162 marionetas de teatro Wayang Kulit recolhida por Victor Bandeira na ilha de Bali, na Indonésia, em 1970. Pertence ao conjunto de 86 marionetas recolhidas na aldeia de Munggu, no distrito de Badung. O conjunto restante de 76 marionetas e 2 percutores musicais foram recolhidas na aldeia de Krobokan, na fronteira entre os distritos Tabanan e Badung. O teatro de marionetas de pele Wayang Kulit é composto por perfomances de caractér lúdico e ritual, sendo geralmente dividido em dois tipos não excluvisos: Wayang Lemah (performances diurnas de carácter ritual) e Wayang Peteng (performances nocturnas de carácter lúdico). O Wayang Kuilt balinês é composto pelo marionetista (dalang), os seus assistentes e uma orquestra de quatro músicos que produzem o acompanhamento musical e ritmos das personagens e histórias. Nesta colecção as narrativas mais representadas são as epopeias hindus Mahabharata e Ramayana, e a narrativa de origem popular balinesa, Calonarang. É provável que o conjunto recolhido em Munggu teatralizasse também o Wayang Kulit Sapu Leger, uma vez que existem as marionetas necessárias para esta performance (AV.557 Betara Sang Hyang Widi ou Tunggal; AV. 565 Tualèn; AV. 532 Kayonan ou Gunung; AV. 579 Bhatara Siwa). Esta performance é realizada para exorcizar as crianças nascidas na semana wayang (wuku wayang) e protegê-las do demónio Bharata Kala. Realiza-se durante a noite, na casa da família da criança. Os pés das marionetas referidas são introduzidas em água, que se torna pura e cantam-se versos. A mesma água é em seguida lançada sobre a criança. Nas várias performances a maioria das personagens interage em Kawi (antiga língua javanesa) e apenas as personagens chamadas de servos-palhaços (Dèlem ou Melem, Merdah, Sangut e Tualèn) falam o dialecto local da aldeia onde a performance está a ser realizada. Repetem para o público as partes mais importantes do que as personagens falaram entre si, introduzindo comentários cómicos que divertem a assistência. Em traços gerais a narrativa Mahabharata relata os vários episódios relacionados com a rivalidade entre os irmãos Pandawa e os seus primos Korawa, que lutam pelo direito ao trono do reino de Hastinapura. Um dos episódios mais teatralizados é a grande batalha, Bharatayuddha, na qual muitas das personagens interagem, dando origem a diferentes tipos de acções narrativas, como cenas de batalha com traições, combates e mortes ou o discurso inicial da batalha, feito pela personagem Kresna, sobre o objectivo final de uma guerra e os deveres dos verdadeiros guerreiros. A narrativa Ramayana relata episódios da vida do deus Rama, sendo um dos mais populares o rapto de sua mulher Sita pelo demónio e rei Ravana. Para recuperá-la, Rama alia-se ao exército de macacos do Rei Sugriva, contando também com a ajuda do macaco Anoman, personagem dotada de poderes sobrenaturais. A narrativa Calonarang tem origem na Indonésia e é indicada como semi-histórica ou lendária. Em Bali a versão mais conhecida foi traduzida do antigo Kawi e conta a história de Rangda, uma bruxa que amaldiçoa o reino de Daha com várias epidemias e secas, vingando-se do facto da sua filha Ratna ser recusada por vários homens nobres da corte do rei Airlangga. Rangda e as suas pupilas dançam no cemitério com a protecção e o poder da deusa Durga. O rei pede ajuda ao sábio Mpu Bharada que casa o seu jovem assistente Brapula com a filha de Rangda. Após a lua-de-mel, Brapula decobre que a forma de derrotar Rangda é ler de trás para a frente um pequeno livro de magia. Ao fazê-lo Mpu Bharada ressuscita todas as vítimas de Rangda e mata a bruxa. O Wayang Calonarang (Wayang Kulit da narrativa de Rangda) é realizado especialmente como teste às capacidades do dalang, nomeadamente, os seus conhecimentos teóricos na arte de Wayang Kulit, os seus podereres de improviso e a sua coragem para apaziguar o poder maléfico de Durga.
 
     
     
   
     
     
     
 
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