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FICHA DE INVENTÁRIO
Museu:
Museu Nacional de Etnologia
N.º de Inventário:
AR.027
Supercategoria:
Etnologia
Categoria:
Artes plásticas
Denominação:
Primavera
Autor:
Ana das Peles
Local de Execução:
Portugal/ Alto-Alentejo/ Évora/ Estremoz
Datação:
XX d.C.
Matéria:
Barro, arame, tintas multicolores.
Técnica:
A especificação da técnica encontra-se no campo do Historial.
Dimensões (cm):
altura: 30; largura: 16,5; diâmetro: 10,7;
Descrição:
Primavera em barro policromado, representado uma figura antropomórfica feminina em pé, com um ramo de flores em cada uma das mãos. A figura assenta numa base circular de cor verde, cujo bordo exibe traços longitudinais entalhados. A Primavera apresenta dois sapatos de cor castanha e dois membros inferiores cilindriformes cobertos por meias de cor branca. Esta exibe um vestido curto e rodado, com duas barras de folhos na extremidade, e uma casaca de mangas largas decorada na parte frontal do tronco com folhos. O vestido e casaca apresentam ainda dois laços, um situado na cintura com as pontas pendentes e outro junto ao pescoço. Os membros superiores encontram-se arqueados para dentro, com as mãos segurando dois ramos de flores de formato cónico. As mãos apresentam linhas incisas representando os dedos. O pescoço é de formato cilíndrico. Na cabeça figuram dois pontos negros que representam os olhos, encimados por dois traços e duas sobrancelhas igualmente negros. O nariz em relevo é de formato triangular e a boca apresenta lábios delineados e enchidos com cor vermelha. De cada lado da face é visível uma rosácea alaranjada. A cabeça exibe, ainda, cabelo preto encimado por um diadema. Este é de cor amarela e é constituído por cinco destaques circulares pintados de verde, laranja e azul decorado com linhas incisas e pintadas de vermelho e azul e três destaques cilíndricos de tonalidade amarela com riscas azuis e vermelhas. Dos ombros da figura parte um arco em arame, circundando a cabeça, ao qual estão aplicadas doze rodelas em barro pintadas de amarelo e laranja, com pintas azuis, laranja e vermelhas, figurando flores. O vestido, de cor laranja, é decorado com folhos verdes. A casaca, igualmente de cor laranja, apresenta contornos e folhos verdes, os laços são de tonalidade verde com riscas azuis e nó vermelho. Os ramos de flores são pintados de amarelo na parte cónica e as flores exibem tons vermelho e azul. Na base é visível uma inscrição aplicada por pressão (carimbo): "Estremoz Portugal". Dimensões da Base: Diâmetro: 7,5 Cm.
Incorporação:
Compra
Proveniência:
Estremoz
Origem / Historial:
Na ficha de inventário dactilografada e no Livro de Tombo a peça tem a designação "Boneco de Barro". No entanto, optou-se pela denominação "Primavera", na medida em que identifica a temática da peça. Referência à Autora Ti Ana das Peles: No fim dos Anos Vinte é criada a Escola de Artes e Ofícios de Estremoz, pela razão da crescente preocupação de revitalizar as artes tradicionais locais ligadas ao mármore e ao barro. A Escola é dirigida inicialmente por Luís Fernandes e depois José Maria de Sá Lemos que orientam, dinamizam e implementam cursos, colocando esta escola num lugar de respeito e afirmação. Sá Lemos, escultor de Vila Nova de Gaia, dedicou-se desde logo a encontrar meios para fazer renascer um sector da cerâmica local, em acentuada crise - a barrística, interessando-se logo pela arte bonequeira de Estremoz, aliás um dos objectivos da recém criada escola. Esta sua dedicação levou-o junto a Ana da Silva, mais conhecida como Ti Ana das Peles, uma velha bonequeira que se mostrou inflexível na altura de transmitir os conhecimentos herdados. Contudo, foi com alguma persistência que Sá Lemos conseguiu fazer com que a senhora partilhasse a sua sabedoria, constituindo-se um dinâmico diálogo com o objectivo de absorver todas as suas técnicas e conhecimentos sobre a arte bonequeira. Ti Ana das Peles obteve os seu conhecimentos com as bonequeiras da segunda metade de oitocentos, e os modelos que então existiam em algumas casas de particulares dessa altura, constituíram um importante registo da memória da velha bonequeira, documentando preciosamente os seus ensinamentos. Entretanto, consciente da idade avançada de Ti Ana das Peles, Sá Lemos procurou interessar Mariano da Conceição - então responsável da Olaria Alfacinha - nesta arte, e este correspondeu da melhor forma à criação barrística. Assim, foi ainda em vida de Ana das Peles que se iniciou na arte bonequeira, dando continuidade aos preciosos conhecimentos da velha senhora, que por sua vez, contribuiu em grande parte para o reaparecimento duma arte que estava condenada a desaparecer. Técnica: Os métodos utilizados na barrística são, os de rolo, da bola e da lastra, esta última, na elaboração de vestuário e bases. As partes constituintes dos bonecos, que apresentam maior espessura e volume são previamente picadas por meio de uma agulha ou arame e depois corrigidos com os dedos. Este procedimento permite uma maior secagem no interior do boneco evitando assim, quebradura e fendilhagem no acto da cozedura. Um dos aspectos que mais caracteriza os bonecos de Estremoz, e diferencia este figurado do restante, é o facto destes nascerem nus e serem posteriormente vestidos. Um boneco de Estremoz é constituído por diversas partes que são unidas entre si. Assim, a primeira peça a ser realizada é a base, que é feita através de um pedaço de barro espalmado por intermédio de uma palmatória. A próxima tarefa consiste em fazer as pernas ou saias e seguidamente o tronco. Com uma bola de barro, e um molde, segue-se a face e depois o pescoço. Os rostos são, na maior parte dos casos, feitos por meio dum molde e colados à bola de barro que constitui a cabeça. Com a ajuda dum teque ou teco (palheta na gíria dos artesãos) modela-se o cabelo. Coloca-se o boneco na base, previamente feita e com furos no local onde este vai assentar, colando-o com barbutina ou lamugem na gíria bonequeira. De seguida, passa-se para a elaboração dos braços que é realizada através de um rolinho. Corta-se a extremidade que liga ao ombro e faz-se em seguida as mãos. Estas são feitas espalmando-se a extremidade do braço menos grossa, e depois, por intermédio de uma série de incisões com a ajuda dos já mencionados teques criam-se os dedos. Unem-se os braços ao tronco com lamugem. É altura então, de vestir os bonecos e colocar todos os adornos referentes ao modelo representado, como chailes, lenços, brincos, chapéus e um número infindável de enfeites saídos da imaginação do artista, empregando-lhes assim, "movimento, vida, alma" (Vermelho, Joaquim, Barros de Estremoz: Contributo Monográfico para o Estudo da Olaria e da Barrística, página 76, Limiar, 1990). Deixa-se o boneco secar e vai ao forno ou à mufla a 800 cº ou 850 cº, no entanto, é importante referir que durante a modelação do boneco convém deixar secar a peça durante as fases da união das várias partes constituintes do boneco. Os bonecos são peças muito frágeis e portanto, são necessários muitos cuidados no processo de enfornamento. Finalmente, o boneco passa pelo processo de pintura onde prevalecem o verde, o azul, o vermelho, o zarcão, o amarelo, o branco, o roxo, o laranja e o preto. As tintas utilizadas são os óxidos que são dissolvidos em água e misturados com grude previamente derretido. Contudo, foram introduzidos recentemente, por questões comerciais e técnicas, têmperas, ou seja tintas a água ou plásticas que são misturadas com colas resinosas para madeira. Estas colas proporcionam ao boneco, resistência à luz e à humidade, sem no entanto, prejudicar a cor. Sobre a pintura seca é colocado um verniz que, nos séculos passados, era fabricado pelos próprios barristas através de processos que se perderam. Foram posteriormente substituídos por vernizes industriais.
 
     
     
   
     
     
     
 
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