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COLUMBANO
Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea



Apresentação

 


Columbano Bordalo Pinheiro, o maior pintor português do século XIX, é o artista que melhor expressa valores de modernidade, numa situação única na arte nacional. Inicialmente, regista os ambientes burgueses como cronista radical da vida moderna e já na viragem do século, apesar das ambiguidades do seu percurso, é testemunha atenta da sociedade portuguesa, ao longo de três gerações, inventariando os espíritos da intelectualidade nacional e as mais destacadas figuras, por vezes em quadros de uma irrealidade original, desde Antero de Quental a Eça de Queirós e Fialho de Almeida, Bulhão Pato, Batalha Reis, Teixeira Gomes, Raul Brandão, Teixeira de Pascoais.

Os seus retratos analíticos revelam a sua realidade interior, extensível à pintura intimista e a uma inesperada pintura decorativa. A sua aceitação, mediatizada pela imprensa, consolidada por uma elite sócio-política que se pretende afirmar e apoiada por uma crítica literária eficaz, permite-lhe a consagração como retratista e um privilegiado estatuto artístico que se reflecte na atribuição dos cargos de Direcção do Museu Nacional de Arte Contemporânea e de professor da Escola de Belas-Artes de Lisboa.
Os núcleos da presente exposição exibem setenta e cinco peças referentes a estas temáticas, maioritariamente pertencentes ao museu que dirigiu, de 1914 a 1927, e que possui no seu acervo duzentas obras, mas conta com a colaboração de colecções particulares, instituições nacionais e de museus internacionais, Orsay, Pitti e MNBA do Rio de Janeiro que apresentam pinturas da sua autoria nunca expostas em Portugal.
A produção de Columbano Bordalo Pinheiro deve ser entendida em termos nacionais, como dado aferidor de mudanças sócio-culturais e políticas, mas também na complexidade das vias desenvolvidas, distinguindo-se o seu envolvimento político com interventoras entidades republicanas que o contratam para a realização de três retratos oficiais dos primeiros Presidentes da República, para além de integrar a comissão que elege a bandeira nacional e definir o seu desenho e esquema cromático.

                                                                     Maria de Aires Silveira
                                                                            Comissária


Núcleos

Momentos de consagração No centro do retrato O intimismo A expressão da modernidade A imagem do artista. O auto-retrato Pintura decorativa Análises laboratoriais da pintura de Columbano

Apresentação dos núcleos

Momentos de consagração Pinturas referenciais como Concerto de Amadores e o Grupo do Leão pontuam a produção dos anos 80, tal como Retrato de Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro introduz valores de modernidade, em processos pictóricos sublinhados por uma autonomia de mancha e indefinição de contornos da figura e objectos. Estas obras receberam sempre grande destaque por parte dos críticos. A primeira, inicialmente desvalorizada mas gradualmente elogiada, liga-se a uma pintura de intimismos que o artista retoma a partir de 1900, embora em menores dimensões. A segunda, representa a geração naturalista numa linha de retratista que permanece em toda a sua produção, através de perspectivas estéticas e tratamento de luz diferenciados, entre propostas ousadas e hesitações.

Paris era excessivamente ruidosa para o seu temperamento, confessara, mas em 1884, Retrato de senhora, ainda testemunha referências da pintura francesa, sobretudo de Manet. Nos anos 90, inicia uma nova fase, de inspiração velazquiana com a apresentação do Retrato de Antero de Quental e de uma galeria de retratos da intelectualidade portuguesa, de grande sucesso mediático que lhe assegura o reconhecimento artístico subsequente. Em 1900, assume-se como artista consagrado e participa no salão da Exposição Universal de Paris onde obtém medalha de ouro. Refere que apanha “um famoso banho de arte” nesta cidade e detém-se no Louvre. No início de 900, dez anos depois da sua pintura parisiense de modernidade, Luva cinzenta, de 81, realiza A luva branca, ambos retratos da irmã preferida, Maria Augusta, estabelecendo assim um contraponto que introduz, tanto no seu esquema cromático como na análise da figura, uma série de retratos considerados pela crítica como “psicológicos”. M.A.S.

No centro do retrato

Columbano impõe-se nos meios de uma elite intelectual e política e a sua importância decide-se a partir de uma conveniente relação artística e jornalística, abrangente aos críticos mais significativos, Mariano Pina, Jaime Batalha Reis, Raul Brandão, Abel Botelho, Oliveira Martins, Henrique Lopes de Mendonça, Rafael Bordalo Pinheiro, Alfredo da Cunha, Afonso Lopes Vieira, José de Figueiredo, Emídio da Silva, João de Barros, Alberto de Oliveira, Teixeira de Pascoais, todos eles retratados pelo artista. Elogiam o carácter particular da sua arte, o realismo e “psicologismo” dos retratos. Efectuados após inúmeras sessões e poses, reflectem uma subjectividade própria, entendida do interior, através de uma paleta escurecida que valoriza a iluminação do rosto e mãos. A luz, controlada pela disposição dos variados cortinados escuros das janelas do seu atelier, penetra gradualmente nos retratos, segmenta a figura e impõe-se nos fundos como pretexto à fruição de uma pintura em pinceladas soltas.
A originalidade da sua produção enuncia um discurso de modernidade através do retrato de destacadas figuras de oitocentos e da viragem do século, colocadas no centro da sua obra de retratista e projecta Columbano como artista privilegiado e reconhecido. Nenhum outro autor conseguira atingir esta posição, situada numa convergência artística, literária e política, mas também jornalística e dos meios teatrais, facto que lhe permite marcar, num discurso cronológico, as alterações da sociedade portuguesa e concentrar as atenções na sua pintura. M.A.S

O Intimismo

A excessiva carga mediática e o exigente trabalho de retratista a que Columbano se dedica acentua o gosto por uma representação de cenas de interior como espaços evasivos, distantes de polémicas. A obscuridade destas pinturas acentua o carácter concêntrico da temática, a partir de uma imaginária zona da casa de família, o não-lugar, neutralizado por sombras e por um inventário de referentes concretos. A chávena de chá, o samovar, o prato, os objectos de cobre, constituem pontos de tensão que dissipam a importância de identidade da figura retratada. A apresentação emotiva ou alegórica dos objectos elege uma ambivalência espacial e os frutos, os jarros e as travessas, aproximam-se do espectador como se representassem a essência das coisas, em momentos “insignificantes” que apenas o autor entende. Mulher e frutos (Femme et fruits), pintura de interior doada pelo autor ao Musée du Luxembourg, destaca a natureza-morta e o estatismo da figura, enquanto que Frutos de Outono aponta a expressividade do rosto de Emília, sua mulher. Frequentemente representado, suspenso na densidade das sombras, simula um fugitivo movimento sugerido pela ausência do corpo. Esta estética intimista surge como uma espécie de manifesto a uma modernidade, decorrente de um realismo estrutural, perceptível em toda a sua produção. Columbano combina a coexistência da objectividade com uma subjectividade expressiva, geradora de narrativas específicas, ou seja, o artista cria singulares espaços, resultantes de uma associação entre a sua ideia do real e o fantástico. M.A.S.

A expressão da modernidade

A partir de 1911, Columbano ultrapassa os limites do realismo, considerando que a aceitação e manifesta reputação de retratista, tal como a sua participação na vida cultural do país proporcionam uma maior liberdade pictórica, tanto na adaptação aos modelos e à sua psicologia, como nos modos de representação. Na sua expressão da modernidade, o salto alongou-se para algo naturalmente espectral, na denúncia ousada de uma sociedade que se espelha em fisionomias lívidas e “tipos incompletos, almas aos pedaços”. Surgem retratos expressivos e inquiridores, definidos por linhas fisionómicas duras sobre tons gerais neutros, numa representação dramática, próxima das correntes expressionistas que se esboçam nos começos de novecentos. O carácter ambíguo das pinturas pontua uma aparente tranquilidade de pose e a expressividade das suas fisionomias, em rostos marcadamente desiludidos ou energicamente perspicazes, num individualismo expressivo que transpõe os limites da realidade e do que se entendia por “verdadeiro”, mas também os da arte nacional. O estudo das fisionomias, consumidas por uma luz que se impõe num específico protagonismo, serve Columbano na pesquisa de uma realidade interiorizada, através de traços e contracções expressivas, de rostos triangulares, olhos rasgados e linhas rosadas, em pormenores do rosto, numa visão dinâmica do retratado como expressão da sua modernidade. M.A.S.

A imagem do artista. O auto-retrato

Columbano, fixa, em 1885, no retrato colectivo do Grupo do Leão, testemunho cúmplice de camaradagem artística e Manifesto Pictórico do Naturalismo em Portugal, muitos dos seus heróis e protagonistas, além de ele próprio. Aí, Columbano deixa transparecer um certo narcisismo que transmitiu, por volta de 1904, a um novo Auto-retrato, visto em contre-plongée. O rosto apresenta uma dignidade altiva, lembrada de Van Dyck que transporta em si os signos da situação social do artista, reconhecido entre os seus pares como o mais importante pintor do período. Do mesmo modo, o Auto-retrato (1927) pertencente à colecção da Galeria degli Uffizi/Palazzo Pitti impõe-se pelo seu realismo estrutural e atitude de uma orgulhosa dignidade, correspondente à consciência do seu reconhecido mérito. Este tempo mental do século XX já não era, porém, o seu. Como tal, o seu universo espectral revelou-se derradeiramente num último e significativo Auto-retrato (1929) que deixou inacabado, quando a morte o surpreendeu. Já não houve tempo para lhe acrescentar a figura da mulher, e dele restou uma pose de Dandi, numa pintura diluída onde apenas avulta o rosto, presença fantasmática de um tempo que era, então, o da Ditadura Militar, pondo termo aos ideais republicanos que sempre haviam norteado a sua vida. R.A.S.

Pintura decorativa

Durante o período c.1885–1915, Columbano produziu um vasto conjunto de obras decorativas. Entre outras, as composições alegóricas do Palácio de Belém e da Quinta de Beau Séjour aqui expostas, os retratos da Sala dos Passos Perdidos da Assembleia da República, as composições históricas do Museu Militar e naturezas mortas de grandes dimensões para residências privadas. A pintura decorativa constitui uma parte integral da sua produção artística e, como tal, desafia a percepção dominante de Columbano como pintor de retratos e cenas intimistas. Profundamente atento à renovada importância da pintura decorativa no contexto da cultura europeia, Columbano dedicou-se ao género, experimentando várias soluções formais, temáticas e compositivas. As suas telas decorativas, públicas ou privadas, contribuem para um melhor entendimento do seu processo de trabalho, tal como revelam aspectos da função da pintura na sociedade portuguesa da época e das relações de Columbano com os seus encomendadores. F.V.

Estudo laboratorial da pintura de Columbano

O tempo em que decorre uma intervenção de conservação-restauro é privilegiado para o estudo das obras de arte. É o momento adequado para identificar materiais e analisar técnicas artísticas.Muito se tem dito e escrito acerca do modo de pintar de Columbano Bordalo Pinheiro. Algumas das suas obras apresentam alterações formais na sua execução. Existe uma forte desconfiança de mudança de cor em determinadas pinturas, através de um “refazer” do quadro, por achar que a anterior fase era muito criticada. Na procura de respostas, foi feita a análise laboratorial em alguns dos seus quadros onde existe essa desconfiança: Retrato de Rafael Bordalo Pinheiro; Retrato de João Rosa; Cristo Crucificado e Frutos de Outono. Tecnicamente, sobressai uma atitude metódica na forma de pintar. Foram identificadas duas camadas de preparação, uma primeira, de cré industrial, e uma segunda, aplicada pelo artista antes de iniciar a pintura. Contrariamente ao que se pensava, detectaram-se em diversas obras alguns apontamentos de desenho subjacente, o que é revelador da premeditação do espaço a pintar. As camadas pictóricas, uma nos fundos e duas ou três nas figuras, são sempre com mistura de branco de chumbo nas carnações e misturas de diversos pigmentos, como os ocres e o negro animal, para os escuros de fundo. Considera-se plausível dizer, neste momento, que, nas alterações, Columbano usou o branco de zinco em substituição do branco de chumbo. Isto quer dizer que, a partir de determinada data, o artista introduziu o branco de zinco na sua paleta de cor.Confirma-se, com o estudo material efectuado, grande parte do que se tem dito acerca do modo de pintar e “refazer” de Columbano. Foram detectadas pequenas alterações nos quadros, que reflectem a natureza do artista, sensível à crítica na procura do ideal. M.L.

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