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FICHA DE INVENTÁRIO
Museu:
Museu de Lamego
N.º de Inventário:
1
Supercategoria:
Arte
Categoria:
Têxteis
Denominação:
O Julgamento do Paraíso
Autores:
Roome, Jean van ( ac. 1509-1521)
Desconhecido
Local de Execução:
Bruxelas
Centro de Fabrico:
Bruxelas
Datação:
1520 d.C.
Matéria:
Lã e seda
Suporte:
Fios de algodão
Técnica:
Tecelagem de alto liço
Dimensões (cm):
altura: 430; largura: 650;
Descrição:
A tapeçaria, designada «O Julgamento do Paraíso», pertence a uma famosa série intitulada "O Combate entre os Vícios e as Virtudes", cujo assunto, em torno do homem expulso do Paraíso pelo Pecado Original, constitui um dos temas principais da iconografia religiosa medieval. A composição desenvolve-se em dois planos sobrepostos, estabelecendo dois níveis de leitura visual. A indicação de que o nível superior se situa nas regiões celestes é confiada à representação dos tufos de nuvens que sustentam um trono ornado de pedraria e no qual se pode ver uma figura masculina vestindo um manto vermelho e ostentando atributos reais: a coroa e o cetro. No plano inferior, um regato, a uma garrafa de peregrino e a presença de um cão a farejar o solo, assinalam, a partir do canto inferior esquerdo a dimensão terrena das acções que aqui decorrem. Na parte inferior, à esquerda, em torno de uma mesa sobre a qual se pode ver um clavicórdio, cuja caixa nos deixa perceber rigorosas decorações geométricas, três figuras femininas e duas masculinas, tocam e cantam. Trajam ricamente, ostentando cordões de ouro, trajes de veludo, seda e brocado. A figura feminina à esquerda toca clavicórdio e na sua frente do outro lado da mesa, um acompanhante masculino toca uma flauta doce. Juntam-se as vozes dos restantes elementos do grupo que segue, atentamente, a música anotada em pergaminhos que seguram com ambas as mãos. No extremo oposto e ainda no plano inferior, ocorrem várias ações diversas. No sentido dos ponteiros do relógio, deparamo-nos com uma cena de intimidade amorosa; o momento preciso em que o corpete de uma jovem figura feminina está prestes a abrir-se sob a ação do gesto do amante (representando, aqui, o vício da Luxúria), que lhe cinge a cintura. Um outro casal, representado em primeiro plano e trajando com opulência, parece alheio, entretido em amena conversação enquanto dedilha um magnífico órgão de fole, acionado, na retaguarda por uma outra jovem figura. Por detrás do órgão e a meia altura entre ambos os casais descritos, podem ver-se três figuras tocando flautas de bisel. Na retaguarda da organista, o ambiente de deleite musical revela-se ainda na presença de um grupo de músicos, entre os quais uma jovem tangendo uma harpa portátil e duas figuras masculinas que seguram um tamborete e uma outra flauta. Na parte central da tapeçaria, estamos perante o aparente ataque de duas figuras armadas de longas espadas e que, investindo contra outro grupo entretido no deleite dos prazeres dos sentidos lhes causam grande comoção. Comoção, no entanto apenas claramente manifestada pelas figuras masculinas, jazendo uma delas (o HOMO = Humanidade) por terra, outra erguendo os braços ao alto. A figura feminina que de espada erguida (a JUSTITA =Justiça) avança na direcção da figura masculina que jaz por terra em evidente pavor, traja de vermelho e um longo e esvoaçante véu completa o seu toucado. O jovem caído é amparado por figuras femininas, uma delas ( a SUPERBIA = Orgulho) segurando na mão direita uma pequena bolsa em forma de envelope. Junto destas figuras, um instrumento de corda de caixa em formato amendoado e o seu arco, abandonados por terra. Um pouco mais à esquerda, a segunda figura feminina empunhando uma espada e vestindo um longo manto azul (a FORTITUDO = Força) preso à altura do peito por um medalhão, vê o seu movimento travado pelo gesto de uma outra figura feminina (a MISERICORDIA = Misericórdia), que pousando uma mão sobre o peito da companheira, a impede de avançar. Na frente da atacante, ajoelha, de mãos postas, uma figura feminina (a CULPA = Culpa), cujo traje azul apresenta longas e largas mangas que o acompanham quase até ao solo. Dominando visualmente, o registo superior, a figura masculina coroada e empunhando o cetro, hieraticamente sentado num trono de imponente arquitetura e que paira sobre uma volumosa formação de nuvens, é Deus, que preside, no céu, ao julgamento do destino a dar à humanidade entregue aos vícios. À esquerda da tapeçaria, e ainda neste espaço representacional, um grupo de oito figuras femininas, de pé e em séria conversação entre si, parecem convocadas pelas duas figuras que comandam o grupo e que são igualmente as únicas representadas armadas de espadas que, uma delas, vestindo um manto azul, ergue ao alto com a mão esquerda. Dirige o olhar para as companheiras que precede, parecendo assinalar, com a mão direita, que é chegado o momento de avançar. Estamos aqui perante o conjunto das Virtudes que debatem o destino do homem pecador. As duas figuras que lideram o grupo de jovens donzelas são as mesmas duas que, em baixo, se lançam contra o grupo deleitado nos prazeres da música. Tratam-se das figuras de FORTITUDO (Força) e de JUSTITIA (Justiça). Quatro das oito figuras referidas dirigem-se para o centro da composição e para o trono celestial. À esquerda do trono, uma figura segura na mão esquerda, um livro aberto apontando com a mão direita para as suas páginas, que constituem, igualmente, o alvo da atenção e do gesto da companheira armada e que encabeçava o grupo anterior. É VERITAS (Verdade) que aponta para o livro onde estão registadas as faltas cometidas pela humanidade e para as quais a JUSTITIA (Justiça) pede o castigo implacável de Deus. Do lado oposto, à direita do trono, outras duas figuras femininas, oriundas do mesmo grupo e não apresentando qualquer elemento identificador para lá do gesto e da linguagem do corpo - a primeira de mãos postas e suplicantes, a segunda, mais jovem, de vermelho - levemente vergada para diante; a companheira, de cabeça levantada - em postura muito direita, mãos juntas à altura do peito mas o olhar dirigido para a frente, para o interlocutor divino, ostenta um longo manto azul. São a MISERICORDIA (Misericórdia) e PAX (Paz), que advogam a causa do HOMO e suplicam a Deus o perdão para a humanidade. Na cena seguinte, à direita da tapeçaria é apresentado um terrível combate no qual podemos reconhecer algumas das figuras femininas do grupo representado no quadrante superior esquerdo da tapeçaria. São as figuras que lideram o ataque, investindo em conjunto contra o adversário que, em grande confusão e com alguns elementos já por terra, bate em retirada. No grupo das sete belas figuras femininas (de uma delas apenas é visível a extremidade do toucado), para além da única espada brandida logo na frente por JUSTITIA (Justiça) contra a figura de armadura dourada que jaz por terra - SUPERBIA (Orgulho), as outras armas empunhadas pelo grupo das virtudes, são: umas rédeas com o seu freio, identificando a figura de TEMPERANTIA (Temperança); um ramo de açucena, atributo de CASTITAS (Castidade); e aquilo que aparenta ser uma peça de sedar ou talvez uma espadela para linho, assinalando a figura de LABOR (Trabalho). O bizarro grupo que sofre o ataque, é constituído por figuras femininas quer masculinas, mas, em ambos os casos, caracterizadas pela estranheza da sua indumentária e pela fealdade patente dalgumas figuras - em flagrante contraste com a juventude e graciosidade das suas oponentes. O grupo, constituído também por sete personagens, sendo três do sexo masculino, ostenta escudos onde estão representados animais reais ou de fábula e outros objectos que nos permitem identificá-los como o exército dos Vícios, com os seus atributos respetivos. A águia, para a SUPERBIA (Orgulho); o peixe para GULA (Gula); o morcego, para INVIDIA (Inveja); a sereia para a LUXURIA (Luxúria); a bolsa de dinheiro, para AVARITIA (Avareza); o arco e flechas, para ACIDIA (Maldade); a espada de lâmina recurvada, para IRA (Ira). Todos os espaços vagos da composição são preenchidos com elementos florais (motivo "millefleur"). A composição encontra-se emoldurada por cercadura estreita, com orla azul, decorada, sobre fundo azul, entre tarja amarela e azul com ramos de flores, azuis e vermelhos e galhos de videira com cachos de uvas e parras. (QUINA, 2005)
Incorporação:
Transferência - antigo Paço Episcopal de Lamego
Origem / Historial:
* Forma de Protecção: classificação; Nível de classificação; interesse nacional; Motivo: Necessidade de acautelamento de especiais medidas sobre o património cultural móvel de particular relevância para a Nação, designadamente os bens ou conjuntos de bens sobre os quais devam recair severas restrições de circulação no território nacional e internacional, nos termos da lei n.º 107/2001, de 8 de Setembro e da respetiva legislação de desenvolvimento, devido ao facto da sua exemplaridade única, raridade, valor testemunhal de cultura ou civilização, relevância patrimonial e qualidade artística no contexto de uma época e estado de conservação que torne imprescindível a sua permanência em condições ambientais e de segurança específicas e adequadas; Legislação aplicável: Lei n.º 107/2001, de 8 de Setembro; Ato Legislativo: Decreto; N.º 19/2006; 18/07/2006* A tapeçaria trata o tema do combate entre os vícios e as virtudes, grandemente apreciado pelo Homem medieval e repetidamente tratado em armações de tapeçarias dedicadas ao tema da "Redenção do Homem" desde o século XVI. A "Música" juntamente com "A Dança" são peças de uma armação de que existem vários exemplares nas colecções reais inglesas e noutros museus e catedrais da Europa" (Leite, 1991), nomeadamente, nas colecções de Hampton Court, do Museu Victoria and Albert (Londres), no Museu Nacional de Munique, nas Catedrais de Palência e Saragoça e numa colecção dos Estados Unidos da América. Os exemplares de Hampton Court apresentam legendas em latim explicativas do assunto representado. "Em Bruxelas, nos Museus Reais de Arte e História existe também uma armação de quatro tapeçarias da "Vitória das Virtudes", versando o mesmo tema. É constituída pelos panos: "Dança"; "Processo do Paraíso" - com grandes semelhanças com a tapeçaria de Lamego - , "Filho Pródigo" e "Paz" e que, segundo o Prof. Guy Delmarcel, constituem o ponto culminante do estilo de Bruxelas da "Pré-Renascença." (Leite, 1991) A Tapeçaria pertencia ao antigo Paço Episcopal e pode ter sido adquirida pelo bispo de Lamego Fernando de Vasconcelos (1531) ou por D. Manuel de Noronha (1551-1569) em Medina del Campo, onde painéis semelhantes com as Virtudes e Vicios se encontravam frequentemente à venda na década de 1550". Este pano e os outros de produção flamenga existentes no Museu de Lamego, encontravam-se a forrar as paredes da Sala do Trono e Recepção do antigo Paço Episcopal e foi aí que as viram e estudaram José Júlio Rodrigues (1908) e Joaquim de Vasconcelos, em 1915, referindo este último, que foi o Bispo D. Francisco José Ribeiro de Vieira e Brito (1901-1911) que as mandou "arrancar às arcas escuras" onde se encontravam enroladas e dobradas, sujeitas à ação dos vermes, e as mandou colocar nas referidas paredes. Criado o Museu em 1917, João Amaral, seu diretor, tirou-as das paredes onde estavam pregadas e armou alguns panos que se encontravam fragmentados. Em 1940, foi atribuída a verba de vinte e cinco mil escudos para o restauro, verba essa que não chegou a ser utilizada, uma vez que em Portugal não havia nenhuma oficina de restauro de têxteis, nem a guerra permitia a saída de panos para o estrangeiro. Somente em 1956, com a criação da Oficina de Retauro de Têxteis que funcionava no Instituto José de Figueiredo (hoje, IPCR) foi possível beneficiar o núcleo de tapeçarias flamengas do Museu. Refira-se que esta tapeçaria foi o primeiro trabalho executado na mencionada oficina. No Inventário dos objetos e respetivos valores pertencentes ao Museu Regional de Lamego, enviado para a Direcção Geral da Fazenda Pública, em 12 de Março de 1934, este pano é mencionado conforme segue: " 1 Uma tapeçaria flamenga do séc. XVI representando a contenda entre as Musas e as Sereias ou a Derrota das Musas pelos adeptos de Constantino, com as dimensões de 6 m e 50 cm de largura e 4,30 m de altura 500 000$00. Joaquim de Vasconcelos, a quem se deve o primeiro estudo sobre a coleção de tapeçarias do Paço Episcopal de Lamego, com reservas, inclui este pano, então cortado em três fragmentos, na série da Historia de Édipo. O prof. Vergílio Correia data a tapeçaria dos princípios do séc. XVI, agrupando-a com os fragmentos da História de Páris e Helena, que fizeram parte da coleção do Museu de Lamego e se encontram atualmente no Museu Nacional de Arte Antiga. Para Alfredo Guimarães e Albano Sardoeira a tapeçaria pertence à Historia do Imperador Constantino e João Amaral apresenta a hipótese de o pano ser alusivo à contenda entre as Sereias e as Musas ordenada pelo Imperador Constantino.
 
     
     
   
     
     
     
 
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