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FICHA DE INVENTÁRIO
Museu:
Museu Nacional de Arqueologia
N.º de Inventário:
994.43.1
Supercategoria:
Arqueologia
Categoria:
Epigrafia
Denominação:
Ara de Tatianós
Autor:
Desconhecido
Datação:
II d.C. - III d.C. - Época Romana
Matéria:
Calcário cinzento
Dimensões (cm):
altura: 55; largura: 25; espessura: 23;
Descrição:
Monumento funerário em forma de ara; capitel profusamente decorado, com fastígio e toros integrando motivos vegetalistas e florais; possui moldura sob a cornija e na base. Na face lateral direita foi representada a figura de uma pomba e, na face lateral esquerda, um cacho de uvas. O campo epigráfico, moldurado, ocupa a face anterior do fuste; contudo, a deficiente paginação do texto levou à gravação de alguns caracteres excessivamente à direita, sobre a moldura e mesmo para além dela. As exclamações inicial e finais foram escritas sobre a cornija, na moldura inferior do fuste e sobre a base. Trata-se do epitáfio de uma criança de tenra idade, Tatianós, para quem Eúenos - o pai - e Antiocheís - a mãe - mandaram executar este monumento e redigir o pungente texto nele exarado. Os antropónimos dos pais são gregos - como gregos são, afinal, a língua e os caracteres utilizados; mas o nome do filho, Tatianós, constitui uma mera grecização do cognomen latino Tatianus (cfr. Kajanto, 1982, p. 156). A epígrafe termina através da singela fórmula "taúta", que nos remete para a incontornável efemeridade da condição humana, para o seu inapelável destino. Quanto às exclamações "chérete", que enquadram superior e inferiormente o epitáfio, para além de clássicas saudações a quem passa e lê poderão, talvez, ocultar aqui símbolos irreconhecíveis para os profanos; de facto, se Leite de Vasconcellos relaciona as uvas e a pomba, lateralmente figuradas no monumento, com cultos de cariz dionisíaco, as mesmas representações poderão todavia encobrir significados cristãos, bem como provavelmente a referida fórmula de saudação, conforme propôs já, com sólidos argumentos, Perea Yébenes. Pela nossa parte, assinalemos que a referida saudação surge sempre, no monumento em análise, com as três sílabas bem separadas entre si: XE PE TE; não será possível, no contexto específico desta ara e em abstracção, reduzir aqui os três épsilones com que terminam todas estas sílabas à função de meros sinais de separação, e entrever assim em XP a abreviatura de Christòs, seguida pela letra "tau", conhecido símbolo 'dissimulado' da cruz? Relativamente às antigas práticas cristãs 'encobertas' - incluindo as "cruces dissimulatae" -, sua razão de ser histórico-social e enquadramento na literatura patrística de meados e de finais do séc. II, confronte-se a esclarecedora síntese de Carcopino (1953, p. 12-20); quanto a exemplos concretos, veja-se o inventivo grafito criptográfico que remete para Cristo, Maria e Pedro no túmulo do apóstolo, em Roma, ou - mais próximo do nosso caso - o curiosíssimo grafito I T X O Y C do "túmulo Y" da necrópole de Catacumbas, onde um "tau" é introduzido entre as duas primeiras letras do célebre criptograma cristão I X O Y C , "Jesus Cristo filho de Deus e Salvador" (cfr., v.g., Álvarez, 1998, p. 78; Carcopino, 1956, p. 343 e est. XIXb; no que se refere ao significado cristão de símbolos idênticos aos representados no monumento em análise e na impossibilidade - e inoportunidade - de citar toda uma bibliografia demasiado longa e heterogénea, limitamo-nos a remeter o leitor para os artigos constantes no clássico Dictionnaire d'Archéologie Chrétienne et de Liturgie: Kirsch, 1948; Leclercq, 1951a e 1951b). Por fim, resta-nos a questão de compatibilizar a exclamação "taúta", onde transparece uma postura estóica perante o destino, com o contexto cristão que supomos estar subjacente à concepção da ara e do epitáfio de Tatianós; porém, aqui não há verdadeira contradição, tendo em conta as evidentes aproximações 'filosóficas' entre estoicismo e cristianismo, bem como a manifesta influência do primeiro sobre o segundo (cfr., v.g., Duhot, 2000, p. 179-199) (transcrição da ficha de catálogo da exposição "Religiões da Lusitânia" da autoria deJosé Cardim Ribeiro). "Salve! Eúenos e Antiocheís, a seu filho Tatianós, tão doce, que viveu um ano e 23 dias; em memória. Salve! Assim é !..."
Incorporação:
Transferência - De Estácio da Veiga via Museu Arqueológico do Algarve
Proveniência:
Fazenda do Trindade
Origem / Historial:
Segundo Estácio da Veiga a Quinta ou Fazenda do Trindade é abrangida pela região balsense e vem indicada na "Carta Archeologica do Algarve" com a designação de povoação extinta ou arrazada. Em 1856 este arqueólogo encontrou vertígios da ocupação romana neste local. Apareceram igualmente neste local duas inscrições, esta, escrita em grego e uma outra latina. A inscrição grega pertenceu a Teixeira de Aragão, que mais tarde a ofereceu a Estácio da Veiga para o Museu do Algarve. A latina pertenceu a Júdice dos Santos que igualmente a ofereceu para o mesmo Museu. Os objectos que fizeram parte do Museu Arqueológico do Algarve, foram, em 1894, integrados no actual Museu Nacional de Arqueologia, por decreto de 20 de Dezembro de 1893 do Ministro Bernardino Machado, conforme "O Arqueólogo Português, série 1, vol. VII, 1903.

Título

Local

Data Início

Encerramento

N.º Catálogo

Escultura Romana

Museu Nacional de Arqueologia

1980-01-01

1982-12-31

Religiões da Lusitania. Loquuntur saxa

Museu Nacional de Arqueologia

2002-06-27

Tavira - Território e Poder

Museu Nacional de Arqueologia

2003-08-05

2004-04-11

 
     
     
   
     
     
     
 
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