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FICHA DE PATRIMÓNIO IMATERIAL
Museu:
Museu Dr. Joaquim Manso
N.º de Inventário:
1 PCI
Domínio:
Práticas sociais, rituais e eventos festivos
Categoria:
Festividades cíclicas
Denominação:
Círio de Nossa Senhora da Vitória
Contexto social:
População da freguesia da Nazaré
Contexto territorial:
Sítio e Praia da Nazaré (Concelho da Nazaré) e Paredes da Vitória (freguesia de Pataias, concelho de Alcobaça)
Contexto temporal:
Quinta-Feira da Ascensão; Anual
Caracterização síntese:
O Círio de Nossa Senhora da Vitória é uma romagem da Nazaré à Ermida de Nossa Senhora da Vitória, em Paredes, concelho de Alcobaça, e cuja origem se pressupõe remontar ao século XVI. Tem início na manhã da Quinta-Feira de Ascensão e parte do Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, no Sítio. Após três voltas ao Santuário, os anjos recitam as loas de partida, seguidos pelos juízes, banda filarmónica, acompanhantes a cavalo e restantes devotos que assistem ao ritual, espalhados nas escadas do Santuário e no Largo (“Terreiro”). Todo o cortejo dirige-se para Paredes, num percurso de cerca de 11 Km, hoje feito parcialmente a cavalo e de carro. Ao chegar à Ermida de Nossa Senhora da Vitória, dão-se três voltas em torno da mesma, os anjos entoam novas loas, assiste-se à missa e tem lugar uma procissão com a respectiva imagem. Antes do regresso, a meio da tarde, depois do almoço e do convívio, efectuam-se as três últimas voltas à capela e os anjos cantam as loas de despedida "à Senhora da Vitória". Chegados ao Sítio, na “Buzina”, dá-se a "passagem da bandeira", momento alto da romaria, que assegura a continuidade do círio. Repetem-se as três voltas ao Santuário de Nossa Senhora da Nazaré e a entoação das loas finais pelos anjos. O círio termina depois de percorridas as ruas principais da Praia, já no fim de tarde.
Caracterização desenvolvida:
Aponta-se pelo menos o século XVI para o início do círio à pequena ermida de Nossa Senhora da Vitória, coincidindo com a migração das gentes de Paredes para a região do actual concelho da Nazaré, verificada nessa época. Esta romaria equestre é um dos principais vestígios da existência daquele porto natural e do impacto da alteração da costa nesta região. O mar e os seus perigos são a “alma” da crença. À semelhança de outras invocações marianas próximas de geografias marítimas, os crentes destinavam oferendas ou acções em louvor de Nossa Senhora da Vitória, em troca de protecção no seu quotidiano ou da anulação de perigos, como os naufrágios e as doenças. O círio identifica-se pelo seu ritual, figuras e símbolos. Em termos de organização do cortejo, à frente, o fogueteiro e os anjos anunciam a passagem do círio; as três crianças (com idades compreendidas entre cerca de 9 e 14 anos), de túnica branca e capa azul e capacete à romana, recitam as loas de louvor (ver loas em MACHADO, 1991, pp. 16-21 e MDJM inv. 547 Doc.) e iam em burros enfeitados, hoje numa carroça puxada por muares, transportando o “guião da Senhora da Vitória”. Atrás, a cavalo, vêm os juízes, casal de jovens solteiros que cumpre a promessa em nome de todos. O rapaz ergue a bandeira com registo de Nossa Senhora da Vitória e a juíza segura a guia. Seguem-se os juízes do próximo ano, igualmente a cavalo. Uma banda filarmónica anima musicalmente a romaria, actualmente à frente da mesma (até ao final dos anos 1990, deslocava-se no fim do cortejo). Marca inegável do círio é o número de acompanhantes a cavalo, que tem vindo a aumentar, com cavaleiros não necessariamente da região. Apesar do círio conservar a estrutura tradicional, a indumentária foi sendo modernizada. Os juízes vestem fatos novos e elegantes, fazendo par entre si, em cor e estilo (optando entre uma versão mais tradicional e outra mais permeável à influência das festas equestres). Os pescadores, com as suas camisolas e barretes, e as nazarenas envergando os trajos de festa foram cedendo lugar a uma população variada, onde muitos acompanhantes aproveitam sobretudo para ostentar a sua cavalaria. O Círio tem início na manhã da Quinta-Feira de Ascensão e parte do Santuário de Nossa Senhora da Nazaré. A concentração forma-se na “Buzina” (à entrada do Sítio) ou, desde há alguns anos, na Praia, em frente do Centro Cultural (antiga Lota), na Av. Manuel Remígio. Aí se encontram os juízes que, depois esperados à “Buzina” pelos restantes acompanhantes, se encaminham para o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré. Após três voltas ao templo (no sentido inverso aos ponteiros do relógio), os anjos recitam as loas de partida, junto à escadaria central, virados para a fachada. A multidão assiste ao ritual, espalhada nas escadas da igreja e no largo (“Terreiro”). De seguida, todo o cortejo dirige-se para Paredes, num percurso de cerca de 11 Km outrora feito de burro ou a pé, através da praia e do pinhal, hoje feito parcialmente a cavalo e de carro. Actualmente, perto do cruzamento para a praia da Légua, efectua-se uma primeira paragem, para merenda dos romeiros. No início de Paredes, junto ao seu Parque de Campismo, os juízes voltam a montar a cavalo e reúne-se todo o cortejo. Ao chegar à ermida, repetem-se as três voltas em torno da mesma, os anjos entoam loas, assiste-se à missa (normalmente pelo pároco da Pederneira / Nazaré) e tem lugar uma procissão com a imagem de Nossa Senhora da Vitória (existente na capela), sobre andor transportado pelos juízes desse ano e os do ano seguinte. Segue-se o almoço oferecido pelos pais dos juízes (com a colaboração dos pais dos futuros juízes). Actualmente, o almoço decorre em mesas e cadeiras distribuídas no terreno perto da ermida, com instalação prévia por técnicos da Câmara Municipal da Nazaré. Para a sua confecção, é contratada uma empresa especializada. Até aos anos 1990, no entanto, a situação era diferente: primeiramente, os próprios acompanhantes levavam o seu farnel, almoçando sobre mantas; os juízes ofereciam a refeição aos músicos e aos anjos; numa segunda fase, os juízes já ofereciam almoço a todos os romeiros, mas confeccionavam-no no próprio local, com a colaboração de familiares e amigos. Depois do almoço e de momentos de lazer, que pode incluir música e dança (actualmente, tende-se a perder este tipo de animação), volta-se a reunir o cortejo, para as três voltas à ermida e a recitação das loas de despedida à Senhora da Vitória. Todo o círio atravessa a pequena povoação de Paredes e dirige-se para o Parque de Campismo, onde entra acompanhado pela banda, para cumprimentar os devotos da Nazaré que aí se encontram acampados. A caminho da vila piscatória, é hábito efectuar outra paragem nas proximidades do cruzamento para a praia da Légua. Chegados ao Sítio no final da tarde, na “Buzina”, dá-se a passagem do testemunho, momento alto da romaria, que assegura a continuidade do círio: os juízes entregam a bandeira aos juízes do ano seguinte, que tomam a dianteira. Todos, dirigem-se ao Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, repetem-se as três voltas e os anjos declamam as últimas loas. O círio termina já ao crepúsculo, depois de percorridas as ruas principais da Praia, sempre aplaudido pela população e animado pela música da banda e o som dos foguetes. A organização do círio é alheia à própria Igreja. Não existe comissão permanente de festeiros e constitui um evento peculiar de autonomia da religiosidade popular. A sua continuidade resulta da intenção espontânea e individual, que decorre anualmente de juiz para juiz, um rapaz e uma rapariga dos núcleos da Praia ou do Sítio, da freguesia da Nazaré. A idade, o carácter íntegro e honesto, o estatuto socio-económico dos pais e a sua facilidade de contacto com potenciais patrocinadores, são características pessoais a ter em conta na escolha de um(a) juiz(a). Desde os finais dos anos 1990, se o juiz for do Sítio, a juíza será da Praia e, no ano seguinte, o inverso. Tradicionalmente, os juízes eram jovens de famílias que efectuavam esta promessa em honra de Nossa Senhora da Vitória e tinham poder económico suficiente para suportar todos os encargos com a organização. Actualmente, os juízes escolhem os seus sucessores motivados sobretudo por relações familiares ou de amizade. São muitos os encargos à responsabilidade dos juízes: traje, cavalos, aulas de equitação, contratação da música, foguetes, flores, almoço para todos os romeiros, reportagem fotográfica,... No início do ano, os juízes começam reuniões informais para escolha dos próximos juízes e tomada de decisões sobre a organização da romaria. A partir de Abril, iniciam um peditório pela região para receber apoio, em dinheiro ou géneros. Nos cartazes da festividade são divulgados os patrocinadores, brindados com lembranças como cavalos, pratos, canecas ou outros objectos, à criatividade dos seus encomendantes. Esta iniciativa é um marco na vida social nazarena, que associa o empenho genuíno para salvaguardar a memória da vivência peregrina ao desejo de prestígio dos seus empreendedores, que disputam entre si a pompa dos festejos. Gradualmente, a dimensão festiva do círio de Nossa Senhora da Vitória foi-se sobrepondo à essência religiosa original. As manifestações religiosas e profanas decorrem apenas num dia, mas alguns romeiros pernoitavam sob os alpendres da ermida. Desde a segunda metade do século XX, a festividade começa mais cedo, cerca de um mês antes, quando os romeiros da Nazaré acampam em Paredes, inicialmente em barracas de veraneio na praia, depois em tendas de lona no Parque de Campismo, para onde se transferem aos fins-de-semana até ao dia do Círio. Para muitos romeiros, a “ida à Vitória” representava também uma quebra no dia-a-dia de trabalho e um tempo para convívio. Depois da missa e do sermão, enquanto as velas ofertadas não se extinguiam, os peregrinos dançavam e cantavam. Sobre as mantas estendidas no areal, comiam e bebiam aquilo que levavam nas suas cestas de verga. Actualmente, os organizadores oferecem ao cortejo o almoço ao ar livre, proporcionando um alegre convívio entre todos. Mais do que garantir a protecção divina à comunidade, hoje, o círio é um dos pontos altos da sociabilidade das gentes da Nazaré.
Contexto transmissão:
Estado de transmissão activo
Modo de transmissão oral
Idioma(s): Português
Agente(s) de transmissão: Juízes
Origem / Historial:
Perde-se no tempo o início desta tradição, mas aponta-se pelo menos o século XVI. É o principal vestígio da anterior importância de Paredes, associada ao mar e à pesca, e cuja origem remonta, segundo vestígios arqueológicos, à Pré-História, mas terá sido particularmente evidente na época da ocupação romana. Esta terra de pescadores encontrava-se edificada no cimo de uma encosta virada para o mar, sobressaindo o seu porto natural. No reinado de D. Dinis, a povoação de Paredes recebeu Carta de Foral, a 17 de Dezembro de 1282. O mesmo monarca confere-lhe novos privilégios, em carta de 20 de Setembro de 1286, o que viria a contribuir para a estabilidade económico-social da vila e para o seu desenvolvimento demográfico. Em 17 de Maio de 1368, a vila foi doada ao Mosteiro de Alcobaça, a mando de D. Fernando, com o propósito das suas rendas recaírem para a salvação da alma de D. Pedro, seu pai, que ali jaz. No entanto, a partir do reinado de D. Manuel verifica-se um notório declínio da vila de Paredes, cuja justificação mais plausível aponta para um assoreamento, que provocou o entulhamento das casas e do porto. José de Almeida Salazar afirma que esta vila possuiria um forte e 17 caravelas para a defesa do seu porto, que teria sido destruído pelas areias em 1600. Manuel Brito Alão, Administrador da Casa Real da Nossa Senhora da Nazaré, assegura que naquele areal teria existido uma povoação de grandes dimensões, que se teria despovoado devido a areias movediças e soltas que a cobriram, e também por ser alvo de piratas. São ainda defendidas as hipóteses do porto de Paredes se ter desmoronado devido a uma violenta tempestade, ocorrida no segundo quartel do séc. XV, ou então de se ter degradado progressivamente (MAURÍCIO, 2005: 6). Dá-se, então, uma migração dos habitantes de Paredes para as proximidades da Lagoa da Pederneira, onde poderiam continuar os labores do mar. No local de Paredes ficaria apenas uma pequena ermida, onde teria existido uma igreja paroquial dedicada a Nossa Senhora da Vitória. Embora se pense que este culto se venere desde os fins do século XIII, quando D. Dinis deu carta de foral a Paredes, o círio ter-se-á iniciado apenas no século XVI, coincidindo com esta migração da população de Paredes, que teria transportado consigo não só os privilégios e forais, mas também este culto, assegurando a sua manutenção. A devoção tornou-se popular entre pescadores da Pederneira e do Sítio, mas também em Famalicão (de Cima), onde se concentrou outra parte dos habitantes de Paredes e onde ainda hoje o orago é Nossa Senhora da Vitória. À semelhança de outras invocações marianas associadas a festividades marítimas, os crentes destinavam oferendas ou acções em louvor da “Senhora da Vitória”, em troca de protecção no seu quotidiano ou perante a ameaça de naufrágios e doenças. O reconhecimento da sua capacidade redentora fortaleceu-se com o chamado “milagre da Gazela”, no dia 11 de Abril de 1925, quando o barco “Gazela”, de José Maria Tinoco, e a sua tripulação foram salvos na praia de Paredes, depois de dias de tempestade. Muitos fiéis da Nazaré acorriam também à pequena ermida antes de irem para a pesca do bacalhau em terras distantes ou, nos anos 1960-70, antes de partirem para a Guerra do Ultramar. Os devotos gravavam o seu nome, preces ou agradecimentos no soalho e nas paredes interiores do templo. Outros levavam oferendas ou deixavam fotografias (dos próprios ou daqueles por quem se rezava). Com as sucessivas intervenções e restauro do pequeno edifício, todas as inscrições e oferendas foram definitivamente removidas. O círio realizava-se a 11 de Abril ou a 1 de Maio, integrando-se nas festividades da Primavera. A partir de meados do século XX e depois de alguns anos de interregno, é organizado anualmente, na Quinta-feira de Ascensão. Tenhamos em consideração que a Quinta-feira de Ascensão era um dia tradicionalmente sagrado; na Nazaré, os pescadores não saíam ao mar neste dia. A freguesia de Pataias realiza igualmente um círio a Nossa Senhora da Vitória, mas no dia 15 de Agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora. A romaria conserva a organização tradicional e o seu carácter equestre, embora os trajos se tenham modernizado. Outrora, o aluguer de cavalos e burros era garantido por ciganos; mas, muitos devotos “iam pelo camarção”, a pé, através da Praia do Norte, como descreve o escritor Alves Redol na sua célebre obra inspirada na comunidade piscatória da Nazaré (“Viera a festa da Senhora da Vitória, soube que ela ia até lá com um rancho de raparigas, e aí vai o Zé pelo areal fora da Praia do Norte, na cola dela” in Alves Redol, Uma fenda na muralha, 1959). Actualmente, a partir do limite do Sítio, é tendência dos juízes descerem dos cavalos e irem de carro, assim como os restantes acompanhantes. Os romeiros prolongavam a festividade, primeiro acampando em volta da ermida ou dormindo sob o telheiro, e depois no areal da praia, em barracas de lona. Modernamente, deslocam-se um mês antes do evento para o Parque de Campismo de Paredes, onde se reúnem todos os fins-de-semana. Embora se tenha perdido parte da espontaneidade primitiva, ainda é válida a afirmação de Saavedra Machado em 1991 “Para além desta transmissão de valores transcendentes, refira-se o carácter familiar deste círio” (MACHADO, 1991). O Círio de Nossa Senhora da Vitória “é mais que uma festa. É a comunhão da gente que abandona a vila e vai para a mata festejar, nem eles sabem bem o quê. Talvez a origem da Nazaré, talvez a Vitória, sabe-se lá qual e sobre que inimigos. É quase um exorcismo colectivo” (MÁXIMO, p. 50).
 
     
     
   
     
     
     
 
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