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O Tempo Resgatado ao Mar
Museu Nacional de Arqueologia



Apresentação

 


O MAR, recurso sempre presente na nossa história coletiva, foi novamente escolhido neste início de século para desígnio nacional, determinação acompanhada de um amplo debate público sobre a necessidade de criar uma estratégia nacional que se consubstancia, por exemplo, no propósito do reconhecimento internacional da extensão da plataforma continental portuguesa. Neste contexto, a opção por uma exposição cuja maior parte do espólio é proveniente do fundo do mar – um ambiente misterioso e inacessível para a grande maioria de nós, mas onde existem abundantes vestígios de histórias de outros tempos e de muitas gentes quase sempre associados a uma dimensão trágico-marítima –, é certamente um bom contributo da arqueologia para aquele mesmo debate e, simultaneamente, uma forma de sensibilizar a sociedade para uma parte importante do seu património, que merece ser conhecido e salvaguardado.

Na exposição O tempo resgatado ao mar damos a conhecer os principais resultados da atividade arqueológica náutica e subaquática realizada em Portugal nos últimos cerca de trinta anos. No início dos anos 80, do século passado, os caminhos dessa ciência e o Museu Nacional de Arqueologia cruzaram-se, com a criação de uma linha de investigação que contribuiu para a posterior estruturação orgânica e legal da atividade, que se passou a basear em métodos e técnicas próprios da Arqueologia. Neste impulso importa destacar, naturalmente, o relevante contributo de Francisco J. S. Alves, responsável pelo desenvolvimento de projetos pioneiros de investigação no setor e, simultaneamente, diretor do Museu Nacional de Arqueologia entre 1980 e 1996.

Na exposição é apresentada uma seleção de peças oriundas de ambientes marítimos, fluviais ou húmidos de todo o território nacional que cobrem simultaneamente um espetro cronológico, desde a época pré-romana ao século xx, mas com maior incidência na época moderna, resultado dos numerosos naufrágios referenciados e da investigação ter sido orientada para alguns deles. O objetivo principal do comissariado científico foi a apresentação de contextos arqueológicos ou a caracterização de locais na costa marítima portuguesa onde se registam repetidas e significativas recolhas de vestígios que indiciam a possível existência de contextos preservados ou demonstram a sua importância nas rotas da navegação. Os achados isolados, quando relevantes, foram também considerados. Naturalmente que uma exposição desta dimensão só foi possível ser realizada com diversas e empenhadas colaborações internas e externas, que harmoniosamente se conjugaram no desenrolar deste processo. Dessa colaboração próxima de muitas instituições, destaca-se o Museu Nacional de Arqueologia Subaquática (ARQUA), em Cartagena. Um agradecimento especial é devido a D. Xavier Nieto Prieto, antigo diretor do arqua que, com generosa disponibilidade e celeridade acolheu, e com a equipa de conservadores do Laboratório (ARQUATEC) tratou, um conjunto de impressivo espólio português que se apresenta na exposição, e não só, e do qual se destaca, naturalmente, a denominada piroga monóxila n.º 2 do rio Lima. Internamente, no seio da tutela do património cultural, a área de Arqueologia Naútica e Subaquática está atualmente integrada no Departamento de Bens Culturais. Com competência na gestão da maioria dos acervos de significativo valor e interesse, agora em exibição – que conta com algumas peças nunca antes mostradas ao público –, foi a unidade técnica que assumiu a responsabilidade pelo fundamental, delicado e permanente trabalho de conservação e restauro de todo o conjunto selecionado.

A preparação desta exposição constituiu assim, também, uma nova oportunidade para se inserir no Matriz a informação sobre o espólio à guarda da Direção-Geral do Património Cultural, assumindo-se o compromisso de doravante disponibilizar a todos os interessados, neste sistema de inventário, gestão e divulgação online do Património Cultural e Natural, este acervo náutico e subaquático. O Laboratório José de Figueiredo foi essencial para a realização de radiografias a duas das principais peças apresentadas na exposição e, também, o vizinho Museu de Marinha de cujas oficinas saiu, a partir do registo gráfico efetuado no campo e propositadamente para a exposição, a réplica do couce de popa do navio do Corpo Santo, realizada por verdadeiros mestres. Regista-se ainda a colaboração, através da cedência de acervo, de alguns museus municipais, conjuntamente membros da Rede Portuguesa de Museus. A circulação de acervos entre todas as instituições teve na Lusitânia Seguros o habitual e generoso mecenas institucional do património cultural nacional. Durante o período de preparação desta exposição foram realizadas importantes descobertas arqueológicas, incidindo principalmente em áreas ribeirinhas da cidade de Lisboa.

Não tendo sido possível, por atendíveis razões temporais e técnicas, incluir exemplos do respetivo acervo na presente exposição, a temática está, não obstante e sempre que possível, representada no corpo do presente catálogo nos artigos que lhe são dedicados, permitindo aceder ao estado da arte de um tema que, compreensivelmente, suscita ampla curiosidade e interesse. Um catálogo que, de resto, ultrapassa a habitual dimensão do registo expositivo para dar lugar a um verdadeiro repositório de textos enquadradores a cargo de alguns dos principais especialistas na área, que procuraram sistematizar o essencial da muita informação existente sobre o tema. Neste ponto, não podemos deixar de destacar a parceria estabelecida com a Imprensa Nacional-Casa da Moeda que, mais uma vez, se associou a um projeto do Museu Nacional de Arqueologia, e agradecer a confiança depositada, pois além do catálogo foram preparados outros projetos editoriais, concretamente uma brochura (bilingue) e um livro de atividades educativas.

O programa da exposição é da responsabilidade de Adolfo Silveira Martins, que assumiu as funções de comissário científico, e o cenográfico projeto de museografia que daí resultou, com assinalável impacto sensorial, mas que sublinha a monumentalidade do lugar, foi desenvolvido por Maria Manuela Fernandes e materializado graficamente pela capacidade criativa do atelier FBA, pela arte de Ana Sabino.

O seu intenso diálogo foi sempre acompanhado por Maria Amélia Fernandes, que compartilhou responsabilidades também na área da coordenação. Esta exposição fica assim também a dever-se, em particular, à pequena e coesa equipa que entre o Museu Nacional de Arqueologia, o setor de arqueologia náutica e subaquática e outros serviços da Direção-Geral do Património Cultural se constituiu, suprindo com competência técnica e humana as múltiplas vertentes de trabalho contempladas neste projeto. Reservo por fim devido agradecimento a Isabel Cordeiro, então Diretora-Geral do Património Cultural, reconhecendo o privilégio que foi termos podido partilhar o caminho que conduziu à concretização de O tempo resgatado ao mar.

Lisboa, 10 de fevereiro de 2014.

Antonio Carvalho, Diretor do Museu Nacional de Arqueologia



«O tempo resgatado ao mar» foi o título atribuído à exposição que evoca a história da arqueologia náutica e subaquática em Portugal, incluída no programa que celebrou o 120.º aniversário da fundação, em 1893, do Museu Nacional de Arqueologia. Concretiza uma das suas vertentes enquanto instituição vocacionada para o estudo e divulgação das coleções de arqueologia e também como precursora da arqueologia náutica e subaquática no nosso país, nas últimas décadas do século XX. Agora sob a tutela da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), tal como o Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS), associaram-se esforços para dar a conhecer os últimos 30 anos de investigação nesta disciplina através, e quase em exclusividade, dos acervos ainda reservados do conhecimento público.

Esta exposição propõe uma visita através do tempo e a cada passo pretende reconstituir os contextos e os testemunhos que durante séculos o mar escondeu. «Cápsulas do tempo» que agora emergem e que recobram esta memória marítima de todos nós. Trinta anos de efetiva intervenção arqueológica nas águas portuguesas, necessariamente sugerem a intervenção em numerosos locais e um consolidado percurso de investigação, mas ainda hoje e também nas próximas gerações se continuará a identificar fragmentos desconhecidos do território, acrescentando saber a esta íntima e secular ligação com o mar. Confrontados com a diversidade cronológica e tipológica das coleções, optámos por expor conjuntos que fossem os mais representativos e singulares de cada um dos períodos, mas também os que estudados já contribuíram para dar a conhecer um pouco mais da nossa história.

Traçámos um percurso da época pré-romana ao período contemporâneo, proporcionando uma leitura que traduzisse não apenas a importância do objeto enquanto achado em meio aquático mas, sobretudo, que permitisse ao visitante contextualizar-se com a unidade arqueológica que representa o sítio em todas as suas vertentes e interdependência relacional de transmissão de conhecimento. O testemunho do naufrágio está patente como um todo que reflecte um acidente, um infortúnio, mas que hoje e através dos seus despojos nos dita o quando, como e porquê. Cada unidade está ilustrada com imagens para dar a conhecer como se processam as escavações e os trabalhos de salvaguarda. Desmistifica- se a ideia da recolha de objetos de proveniência submersa de forma arbitrária ou de «caça ao tesouro» e exemplificam-se os métodos e os processos de intervenção arqueológica e a sua necessária aplicação por especialistas credenciados. O visitante tendo já assistido a trabalhos arqueológicos em terra tem a oportunidade de observar como se realizam no mar.

A visita inicia-se pelo núcleo dedicado à Antiguidade, e ainda que hoje seja desconhecida uma estrutura que pudesse ser testemunho mais representativo de um navio de época, mostram-se indícios da sua passagem por toda a costa, sobretudo através de ânforas que transportavam diferentes produtos e cepos de âncora, entre outros e diversificados artefactos marítimos ou perdidos no mar. A dinâmica portuária e os seus inúmeros vestígios, nomeadamente os recentemente identificados na beira mar de Lisboa, como exemplificam as intervenções ao longo da Avenida de 24 de Julho e até ao Cais do Sodré, designadamente no Largo do Corpo Santo, Boavista, Praça de D. Luís I, trazem-nos novos documentos sobre a cidade anterior ao terramoto de 1755.

Também as escavações arqueológicas na extensa ria de Aveiro proporcionam o testemunho dos tempos medievais e modernos. Dedica-se ainda particular atenção ao estudo de vestígios em contexto portuário e de três sítios de naufrágio, que traduzem a atividade comercial marítima da região de Aveiro, bem como o comércio e a navegação no litoral português. Os navios da baía de Angra do Heroísmo nos Açores, naufragados em fundeadouro, local de escala de rotas oceânicas, com cerca de uma dezena de incidências conhecidas desde o século XVI, estão hoje a ser estudados, com alguns a revelar particular interesse para o conhecimento da construção naval ibérica. São Julião da Barra, junto a Lisboa, é um local mundialmente conhecido de ocorrência de acidentes, justificados pelas condições naturais e geoestratégicas da barra do Tejo, tornando-se por isso num complexo sítio arqueológico submerso de grande diversidade cultural. Com indicadores cronológicos desde o início do século xvi até aos dias de hoje e com a frequência de distúrbios provocados pelas correntes, ventos e pequena profundidade é dos locais de mais difícil interpretação pela dinâmica de movimentação dos depósitos. Contudo, foi aqui identificado um navio proveniente do Oriente, a presumível Nossa Senhora dos Mártires, naufragado em 1606, cujo espólio serviu de tema à exposição do Pavilhão de Portugal durante a Expo’98, parte de um projeto mais vasto sobre a Carreira da Índia. Foram identificados milhares de artefactos de origem cultural diversa e uma pequena parte do casco que tem sido objeto de estudo aprofundado e reconstituição. Também aqui foram recuperados três astrolábios que incorporam o núcleo de objetos de navegação que se apresenta na exposição e no catálogo.

Para os finais do século XVII conhecem-se como mais representativos: os vestígios de um presumível navio inglês, naufragado na costa do Algarve, que trazia a bordo um extenso número de pratos de estanho com origem na Cornualha; o núcleo de canhões da Ponta do Altar, ilustrado pela colubrina exposta; os vários artefactos da praia do Baleal em Peniche e o espólio identificado no acidentado cabo Raso, em Cascais.

No princípio da década de 1980 realizou-se a primeira escavação em meio aquático efetuada em Portugal. Incidiu sobre parte dos despojos do navio francês L’ Ócean, junto à praia da Salema, no Algarve. Associando a informação textual aos vestígios materiais, localizou-se assim um dos episódios da história marítima militar do século xviii no contexto da Guerra dos Sete Anos. Implicações económicas no Ocidente europeu e infortúnio de centenas de tripulantes e passageiros resultaram da perda do navio espanhol San Pedro de Alcantara, quando naufragou na Papoa, em Peniche. Exemplo do exercício de interpretação integrada arqueológica e histórica, a escavação e pesquisa documental traçaram os caminhos de uma complexa investigação que clarificou o processo conjuntural que teve implicações na Europa e em particular alterou o percurso regional. Por fim chegamos ao Contemporâneo com o testemunho de um navio afundado durante a II Guerra Mundial.

Traçamos assim num só tempo vários tempos e resgatámos conhecimento fundamentado sobre a investigação de várias equipas em arqueologia náutica e subaquática. Passámos a conhecer mais sobre nós, também sobre quem por aqui passou e revelamos um pouco mais da nossa história.

Reunidas pela DGPC as condições favoráveis para a concretização da exposição, congregou-se uma equipa de especialistas que deram corpo à primeira parte desta obra, atualizando os conhecimentos e divulgando a disciplina, carreando-se este esforço para uma edição que se pretende também como uma referência para o ensino e investigação. Foram desenvolvidas matérias que contemplam exaustivamente todos os períodos e temas representados na ordem da exposição em abordagem científica, concomitante com uma expressão simples e de fácil acesso para o público que nos visita. No catálogo mostra-se o acervo patente na exposição, organizado cronologicamente por sítio arqueológico, antecedido de um breve apontamento que identifica e caracteriza o local de achado.

Prevê-se ainda e para o decorrer da exposição a concretização de várias iniciativas, nomeadamente de natureza didática, dirigidas aos mais jovens, como a edição de um roteiro infantil e juvenil e a realização de ateliês, conferências por especialistas nacionais e internacionais, jornadas científicas, visitas externas programadas e outras atividades relacionadas com a intervenção, divulgação, salvaguarda e proteção de sítios arqueológicos subaquáticos e no litoral.

O esforço na concretização desta exposição, a primeira que apresenta de forma global a arqueologia náutica e subaquática em Portugal, passou também por diferentes parcerias que empenhadamente colaboraram colmatando necessidades de natureza técnica e logística. O Museu Nacional de Arqueologia Subaquática de Cartagena, Espanha, prontificou-se a finalizar o tratamento por liofilização de duas canoas monóxilas e outros artefactos em madeira. A Câmara Municipal de Cascais e a Empresa Abreu Cargo efetuaram os transportes entre Portugal e Espanha. O El Corte Inglés e a Fundación Ramón Areces patrocinaram a primeira revisão dos textos editados e a Imprensa Nacional – Casa da Moeda a revisão final, a publicação do catálogo, da brochura de divulgação e do roteiro infanto-juvenil. Contámos ainda com a disponibilidade dos autores e tradutores referenciados no catálogo.
Contudo foi ainda o empenho das equipas da DGPC que tornaram possível este projeto, através de uma íntima colaboração institucional entre o Museu Nacional de Arqueologia, o Departamento de Bens Culturais, o CNANS, a Divisão Laboratório José de Figueiredo, o Arquivo de Documentação Fotográfica e outras unidades orgânicas da DGPC.

No decorrer da preparação da exposição e numa abordagem mais atenta sobre a atividade no nosso país, e conscientes das inúmeras concretizações e consolidação desta ciência, a matéria desperta-nos todavia para as problemáticas da conjuntura que hoje atravessamos. Perspetivam-se novas oportunidades e desafios que adequados a esta nova vivência podem no entanto garantir, apesar dos escassos recursos financeiros, a melhor continuidade e afirmação do desenvolvimento da arqueologia náutica e subaquática em Portugal.

Lisboa, 10 de fevereiro de 2014.



Adolfo Silveira, comissário científico

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